Vejo muitas pessoas dizendo que não encontraram seu propósito.
Elas trabalham, cuidam da casa, resolvem problemas, cumprem horários e atravessam uma semana depois da outra. A vida continua funcionando, mas parece ter perdido a cor.
Não existe necessariamente uma grande tragédia.
Existe falta de entusiasmo.
Nada desperta curiosidade suficiente. Nada provoca aquela vontade de conversar por horas, descobrir mais, aprender, experimentar e ver até onde aquilo pode chegar.
A pessoa não está exatamente infeliz.
Mas também não sente aquele tesão de viver.
Quando perguntamos do que ela gosta, surgem respostas vagas. Viajar. Descansar. Ficar com a família. Ter tranquilidade.
Tudo isso pode ser importante, mas ainda não responde completamente à pergunta.
O que faz seu coração vibrar?
O que desperta em você uma vontade verdadeira de participar da vida?
Propósito tem relação com paixão
Eu penso que propósito é fazer cada vez mais aquilo que desperta paixão.
Aquilo que empolga.
Que anima uma conversa.
Que faz você procurar um livro, assistir a uma aula, formular perguntas e continuar pensando sobre o assunto mesmo depois que todo mundo já mudou de tema.
Existe alguma coisa diferente quando encontramos algo que nos fascina.
A energia muda.
O olhar muda.
A curiosidade aparece.
Não significa que tudo será fácil, agradável ou rentável. Também não significa que aquilo precise se transformar imediatamente em profissão.
Significa apenas que existe vida ali.
E a vida costuma sinalizar seus caminhos por meio daquilo que nos deixa mais vivos.
Mas encontrar algo que desperta paixão não basta.
O coração pode apontar uma direção. Ainda será preciso caminhar.
Paixão sem dedicação continua sendo apenas uma possibilidade. É o compromisso que oferece ao propósito uma chance de ganhar forma.
Nem tudo são flores, mesmo quando amamos o caminho
Existe uma ideia romantizada de que encontrar o propósito significa nunca mais sentir preguiça, frustração, dúvida ou cansaço.
Como se a pessoa acordasse todos os dias radiante, pronta para cumprir sua missão, enquanto uma música inspiradora toca discretamente ao fundo.
Não funciona assim.
Você pode amar profundamente alguma coisa e ainda encontrar partes difíceis nela.
Pode gostar de escrever e detestar revisar.
Pode amar ensinar e se cansar de preparar uma aula.
Pode se sentir realizada atendendo pessoas e, ainda assim, precisar estudar temas complexos, organizar horários, responder mensagens e lidar com as responsabilidades de sustentar um trabalho.
A existência de esforço não invalida o propósito.
O que muda é a qualidade desse esforço.
Há coisas que nos cansam e nos esvaziam.
Outras nos cansam, mas deixam uma sensação de presença, sentido e realização.
Você termina cansada, mas sabe por que fez aquilo.
E essa diferença importa.
Minha relação com a terapia não começou no consultório
Durante 21 anos, minha vida profissional esteve ligada à enfermagem.
Passei grande parte desse tempo dentro de hospitais e muito próxima da oncologia. Acompanhei pessoas atravessando adoecimentos, perdas, medos, recomeços e mudanças que ninguém havia planejado.
A enfermagem me ensinou muita coisa sobre técnica, responsabilidade e cuidado.
Mas também me colocou diante de perguntas que nenhum procedimento conseguia responder completamente.
O que acontece dentro de uma pessoa quando a vida muda de repente?
Por que algumas histórias nos atravessam de determinada maneira?
Como alguém encontra recursos para continuar?
Por que conhecemos racionalmente tantas coisas sobre nós e ainda repetimos comportamentos que nos machucam?
Em algum momento, comecei a procurar outras formas de compreender o sofrimento humano.
Levei o Reiki para dentro do hospital. Estudei práticas integrativas. Assistia a aulas e palestras de madrugada porque alguma coisa naqueles assuntos me chamava.
Ninguém precisava me obrigar.
Eu queria entender.
Talvez meu propósito já estivesse aparecendo ali, muito antes de eu saber nomeá-lo.
Quando encontrei a psicanálise, não tive a sensação de estar começando uma história completamente nova. Foi mais parecido com reconhecer uma história que já vinha sendo escrita há muito tempo.
Percebi que a escuta, o acolhimento, a conversa e o interesse pela consciência humana sempre estiveram presentes na minha trajetória.
Eu não estava abandonando tudo o que havia vivido para me tornar terapeuta.
Estava reunindo as partes.
O que faz meu coração vibrar também exige trabalho
Eu amo a terapia.
A consciência humana me fascina.
Gosto de compreender por que fazemos o que fazemos, como construímos nossas percepções e de que maneira aquilo que vivemos continua participando das nossas escolhas.
Esse interesse aparece nas sessões, nos textos que escrevo, nas reflexões da página, no podcast, nos livros que procuro e nas conversas que acabam entrando por caminhos que ninguém havia planejado.
Mas gostar não me isenta de estudar.
Ao contrário.
Justamente porque amo esse trabalho, sinto necessidade de compreender mais.
Estudo psicanálise, psicologia analítica, neuropsicanálise, comportamento, relações e tudo aquilo que possa ampliar minha capacidade de enxergar o ser humano.
Preciso rever ideias, confrontar certezas, reconhecer meus limites e aceitar que nunca saberei tudo.
O fascínio alimenta o estudo.
E o estudo oferece profundidade ao fascínio.
Se eu dissesse que amo a consciência humana, mas não reservasse nenhum tempo para estudar, escrever, atender e desenvolver esse trabalho, essa paixão continuaria existindo apenas dentro de mim.
Talvez fosse um desejo bonito.
Mas não teria recebido uma chance real de se tornar parte da minha vida.
Aquilo que você ama precisa receber espaço
Muitas pessoas dizem amar alguma coisa, mas oferecem a ela apenas o tempo que sobra.
E quase nunca sobra.
As obrigações chegam primeiro.
O trabalho.
A casa.
Os filhos.
A saúde.
As contas.
Os imprevistos.
O cansaço.
É verdade que existem períodos em que a vida exige quase tudo de nós. Nem sempre conseguimos nos dedicar como gostaríamos.
Isso não é falta de propósito. É realidade.
Mas existe uma diferença entre atravessar uma fase difícil e passar anos esperando que apareça o momento perfeito.
Talvez você diga que ama escrever, mas nunca separe uma hora para escrever.
Diga que gostaria de estudar determinado assunto, mas nunca comece.
Sonhe com um projeto, mas continue esperando segurança absoluta.
Tenha vontade de aprender alguma coisa, mas trate esse desejo como uma frivolidade diante das tarefas consideradas sérias.
Aos poucos, aquilo que fazia seu coração vibrar vai ficando distante.
Não porque deixou de ser importante.
Porque nunca recebeu espaço suficiente para crescer.
O propósito precisa de tempo.
Talvez não seja muito no começo.
Uma hora por semana.
Uma aula.
Um livro.
Uma conversa.
Um pequeno projeto.
Uma experiência.
Não é preciso virar a vida de cabeça para baixo.
Mas é preciso deixar de oferecer apenas migalhas àquilo que você diz amar.
Algumas pessoas não estão sem propósito
Talvez estejam sem permissão.
Permissão para fazer algo que não tenha utilidade imediata.
Para começar depois dos 40.
Para ser iniciante.
Para investir em uma capacidade que ninguém da família compreende.
Para gostar de algo que não combina com a imagem construída até aqui.
Para mudar de ideia.
Para admitir que desejam uma vida diferente.
Também existe medo.
Porque, quando reconhecemos aquilo que realmente queremos, começamos a perceber o quanto temos participado ou não da construção desse caminho.
Enquanto digo que não sei qual é o meu propósito, posso permanecer esperando uma resposta.
Quando reconheço o que me empolga, surge uma pergunta um pouco mais desconfortável:
O que estou fazendo para oferecer uma chance a isso?
Talvez você descubra que sabe exatamente o que ama.
Apenas não reservou tempo, energia ou coragem para descobrir até onde esse amor poderia levá-la.
Propósito não é apenas prazer
Fazer aquilo que o coração deseja não significa obedecer a qualquer impulso.
Nem todo prazer é propósito.
Nem toda curiosidade precisa virar projeto.
Nem tudo aquilo que amamos precisa se tornar profissão.
Propósito envolve paixão, mas também envolve construção.
Ele aparece no encontro entre o que mobiliza você e aquilo que está disposta a sustentar.
É fácil se empolgar durante alguns dias.
Mais difícil é permanecer quando o aprendizado exige paciência, quando o resultado demora, quando precisamos recomeçar ou quando ninguém ainda reconhece o valor daquilo que estamos fazendo.
Talvez você ame cantar.
Mas está disposta a estudar música?
Talvez queira escrever.
Mas aceita construir uma relação com a escrita mesmo quando as palavras não aparecem bonitas?
Talvez deseje trabalhar com pessoas.
Mas tem interesse suficiente para estudar, ouvir, reconhecer limites e assumir responsabilidade pelo impacto da sua atuação?
O propósito não exige perfeição.
Exige participação.
Você não precisa saber tudo antes de começar.
Precisa se envolver o suficiente para descobrir se existe ali apenas uma fantasia ou uma possibilidade de vida.
Como reconhecer aquilo que faz você vibrar?
Talvez você não encontre essa resposta perguntando diretamente qual é sua grande missão.
Pode começar observando as pequenas alterações de energia.
Sobre o que você gosta de conversar?
Que assunto faz você formular novas perguntas?
O que você procura aprender mesmo quando ninguém cobra?
Que atividade deixa você cansada, mas satisfeita?
Em quais momentos sente que está utilizando alguma parte importante de si?
O que admira profundamente nas outras pessoas?
Que desejo continua retornando, mesmo depois de você tentar considerá-lo pouco prático, infantil ou impossível?
O que faria se tivesse a garantia de que não seria ridicularizada?
A resposta pode não surgir imediatamente.
Também pode aparecer de uma forma muito menos grandiosa do que você imaginava.
Propósito nem sempre chega anunciando que veio transformar sua vida.
Às vezes, começa como curiosidade.
Depois vira interesse.
O interesse recebe estudo.
O estudo encontra prática.
A prática produz capacidade.
E aquilo que parecia apenas uma vontade começa a ocupar um lugar cada vez mais verdadeiro na sua existência.
Fazer mais daquilo que dá vida
Não acredito que exista uma única missão perfeita esperando ser descoberta.
Podemos ter diferentes propósitos ao longo da vida.
O que nos mobiliza em determinada fase pode perder sentido depois de alguns anos. Outras perguntas aparecem. Novas capacidades são desenvolvidas. A vida pede movimentos diferentes.
Mas acredito que precisamos levar a sério aquilo que nos faz vibrar.
Não para abandonar responsabilidades ou transformar cada desejo em profissão.
Para não construir uma vida inteira em que tudo recebe atenção, menos aquilo que nos devolve vida.
Na terapia, a busca por propósito não significa receber uma resposta pronta sobre o que você deveria fazer.
Significa compreender o que afastou você do próprio desejo.
Reconhecer as paixões que foram diminuídas.
Perceber os medos que impedem você de experimentar.
E construir condições emocionais e práticas para dar uma chance ao que ainda pulsa.
Talvez você não precise descobrir hoje o que nasceu para fazer.
Talvez precise observar o que faz seus olhos brilharem e decidir participar um pouco mais disso.
Porque propósito não é apenas encontrar aquilo que você ama.
É parar de esperar que essa paixão cresça sozinha enquanto você continua oferecendo todo o seu tempo ao restante do mundo.
Um espaço para escutar e sustentar aquilo que faz você vibrar
O coração pode indicar o caminho. Mas é a dedicação que transforma paixão em uma vida com sentido.
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