Você sabe o que precisa fazer.

A tarefa está ali.

Pode ser uma conversa que precisa acontecer, uma decisão que você vem evitando, um projeto importante, uma consulta que deveria marcar, um currículo que precisa enviar ou uma mudança que deseja começar há meses.

Você sabe que adiar não fará aquilo desaparecer.

Sabe que provavelmente ficará mais difícil depois.

Sabe, inclusive, que se sentirá melhor quando finalmente resolver.

Mesmo assim, não começa.

Antes, decide responder uma mensagem.

Organizar alguma coisa.

Fazer um café.

Pesquisar um pouco mais.

Esperar a segunda-feira, o próximo mês, o momento certo ou uma versão sua que esteja mais descansada, preparada e inspirada.

A tarefa continua esperando.

E você também.

Se é importante, por que eu continuo adiando?

Essa pergunta costuma vir acompanhada de uma acusação.

“Eu sou preguiçosa.”

“Não tenho disciplina.”

“Não termino nada.”

“Eu sempre estrago tudo.”

A pessoa observa o próprio comportamento e conclui que existe alguma falha nela.

Afinal, parece absurdo desejar tanto uma coisa e, ao mesmo tempo, não conseguir caminhar em direção a ela.

Mas talvez a procrastinação não seja apenas uma dificuldade de fazer.

Talvez seja uma forma de evitar sentir.

Porque algumas tarefas não carregam apenas aquilo que precisa ser realizado.

Elas carregam a possibilidade de fracassar.

De ser julgada.

De descobrir que não sabe tanto quanto imaginava.

De precisar sustentar uma escolha.

De decepcionar alguém.

De se decepcionar.

Ou de encontrar uma versão de si que já não poderá continuar fingindo que não existe.

Adiar produz alívio

Quando você evita uma tarefa que provoca desconforto, alguma coisa acontece imediatamente.

A ansiedade diminui.

Por alguns minutos, você não precisa lidar com aquilo.

Não precisa tomar a decisão.

Não precisa se expor.

Não precisa correr o risco.

O cérebro entende que fugir funcionou.

A tarefa continua existindo, mas o desconforto desapareceu por um instante.

Esse alívio é breve, porém poderoso.

É por isso que você pode passar horas sofrendo por não começar e, ainda assim, sentir uma pequena tranquilidade sempre que encontra uma justificativa para deixar para depois.

O problema é que o alívio cobra juros.

Mais tarde, a tarefa volta acompanhada da culpa, da pressa, da vergonha e da sensação de que agora tudo ficou ainda maior.

Você não precisa mais lidar apenas com aquilo que deveria fazer.

Também precisa lidar com tudo o que passou a pensar sobre si por não ter feito.

Talvez você não esteja adiando a tarefa

Talvez esteja adiando o encontro com aquilo que imagina que sentirá enquanto tenta.

Uma pessoa pode adiar a inscrição em um curso porque teme não acompanhar.

Pode evitar enviar um projeto porque não suporta a possibilidade de receber uma crítica.

Pode postergar uma conversa porque sabe que, depois dela, alguma decisão precisará ser tomada.

Pode não divulgar o próprio trabalho porque deseja crescer, mas teme ser vista.

Pode evitar começar a cuidar do corpo porque cada tentativa anterior terminou em frustração.

Pode continuar dizendo que ainda não está pronta quando, na verdade, não sabe como suportaria descobrir que estava pronta há muito tempo.

A tarefa visível é apenas a superfície.

Por baixo dela, existe uma expectativa emocional.

“O que isso vai dizer sobre mim se eu não conseguir?”

“O que as pessoas vão pensar?”

“E se eu perceber que não sou tão boa?”

“E se der certo e eu não conseguir sustentar?”

Às vezes, o que paralisa não é o tamanho da tarefa.

É o significado que ela ganhou.

O perfeccionismo sabe se disfarçar

Nem sempre o perfeccionismo aparece como alguém fazendo tudo impecavelmente.

Às vezes, ele aparece como alguém que não consegue começar.

A pessoa acredita que precisa pesquisar mais.

Organizar melhor.

Ter mais tempo.

Comprar os materiais certos.

Encontrar o método ideal.

Compreender tudo antes do primeiro passo.

Ela chama isso de preparação.

Mas, em alguns momentos, está apenas tentando eliminar qualquer possibilidade de erro antes de se permitir agir.

Como essa garantia não existe, a preparação nunca termina.

O perfeccionismo cria uma exigência impossível:

Você só pode começar quando já souber fazer.

Só pode tentar quando tiver certeza de que dará certo.

Só pode aparecer quando não houver nenhuma chance de parecer insegura.

Só pode produzir quando o resultado estiver à altura daquilo que imaginou.

Então você espera.

Não porque não se importe.

Mas porque se importa tanto que qualquer resultado imperfeito parece ameaçador.

Existe um medo de fracassar

Fracassar pode parecer a confirmação de uma suspeita antiga.

Talvez você já carregue a sensação de não ser capaz, inteligente, talentosa ou disciplinada o suficiente.

Enquanto não tenta, ainda pode acreditar que conseguiria.

O projeto permanece perfeito dentro da sua cabeça.

A mudança continua possível.

O sonho não foi testado pela realidade.

Começar significa permitir que aquilo saia do campo da imaginação e encontre limites, dificuldades e imperfeições.

Se não fizer, você não fracassa.

Mas também não descobre o que poderia acontecer se permanecesse tempo suficiente no processo para aprender.

Às vezes, a procrastinação protege uma imagem idealizada de potencial.

“Eu poderia fazer algo incrível, se realmente tentasse.”

Essa frase preserva a fantasia e adia a experiência.

O preço é passar a vida sendo alguém que poderia.

Mas também existe um medo de conseguir

Essa parte costuma ser mais difícil de reconhecer.

Por que alguém teria medo de alcançar aquilo que deseja?

Porque conseguir também produz consequências.

Um trabalho novo pode exigir posicionamento.

Um projeto bem-sucedido pode trazer mais responsabilidade.

Começar a ganhar dinheiro com algo pode transformar prazer em compromisso.

Ser reconhecida pode aumentar a exposição.

Colocar um limite pode mudar uma relação.

Cuidar de si pode obrigar você a rever acordos antigos.

Assumir o próprio desejo pode decepcionar pessoas que se beneficiavam da sua indecisão.

O sucesso não muda apenas o resultado.

Ele pode mudar a forma como você se vê e o lugar que ocupa diante dos outros.

Talvez uma parte sua queira avançar.

Outra ainda esteja tentando proteger a vida conhecida, mesmo que ela já não seja confortável.

Nesse conflito, adiar parece uma solução provisória.

Você não desiste.

Mas também não precisa mudar.

A tarefa cresce enquanto você olha para ela

Quanto mais tempo algo é adiado, maior costuma parecer.

Uma conversa de vinte minutos ocupa semanas de pensamento.

Um e-mail simples se transforma em uma prova de competência.

Uma decisão possível ganha o peso de definir o resto da vida.

A tarefa real permanece do mesmo tamanho.

Mas a tarefa imaginada cresce.

Você começa a ensaiar cenários.

Antecipar dificuldades.

Prever reações.

Criar soluções para problemas que ainda nem aconteceram.

Quando finalmente olha novamente para aquilo, já não enxerga o primeiro passo.

Enxerga a montanha inteira.

E ninguém escala uma montanha emocional numa terça-feira às três da tarde sem ao menos considerar lavar a louça antes.

A culpa não faz você começar melhor

Depois de adiar, você se critica.

Diz que precisa criar vergonha.

Promete que amanhã será diferente.

Monta uma rotina rígida.

Faz uma lista enorme.

Decide compensar todo o tempo perdido de uma única vez.

Por algumas horas, sente que retomou o controle.

Então a exigência se torna pesada demais, você não consegue cumpri-la e volta a evitar.

A culpa parece uma tentativa de produzir movimento.

Mas frequentemente aumenta justamente o desconforto que você estava tentando evitar.

Agora, além da tarefa, existe uma pessoa dentro de você dizendo que você é incapaz, irresponsável e atrasada.

Começar nesse ambiente interno se torna ainda mais difícil.

É como tentar construir alguma coisa enquanto alguém grita no seu ouvido que você já deveria ter terminado.

Nem todo adiamento é autossabotagem

Às vezes, você não começa porque está cansada.

Porque assumiu mais responsabilidades do que consegue sustentar.

Porque a tarefa é confusa e não sabe qual é o primeiro passo.

Porque precisa de ajuda, mas acredita que deveria dar conta sozinha.

Porque seu corpo está pedindo descanso e você continua chamando exaustão de falta de disciplina.

Também pode existir uma razão ainda mais incômoda:

Talvez você esteja adiando porque não quer verdadeiramente aquilo.

Quer desejar.

Acredita que deveria querer.

Imagina que seria admirada se conseguisse.

Mas alguma parte sua não reconhece aquele projeto como próprio.

Nem toda resistência precisa ser vencida.

Algumas precisam ser escutadas.

Há uma diferença entre o medo que aparece diante de algo importante e o peso de perseguir uma vida que já não faz sentido.

Por isso, antes de perguntar “como faço para parar de procrastinar?”, talvez seja necessário perguntar:

“Eu quero realizar isso ou apenas quero me tornar a pessoa que imagino que deveria ser?”

O primeiro passo precisa caber na realidade

Quando você olha para tudo o que precisa fazer, pode sentir que precisa se transformar antes de começar.

Ser mais organizada.

Mais segura.

Mais corajosa.

Mais disciplinada.

Mas talvez a pessoa capaz de concluir não exista antes do processo.

Ela será construída enquanto faz.

Você não precisa sentir confiança para dar o primeiro passo.

Pode dar o primeiro passo ainda insegura.

Não precisa eliminar o medo.

Precisa apenas deixar de exigir que ele desapareça antes de você se mover.

Uma tarefa importante não precisa começar com uma grande decisão.

Pode começar com um gesto pequeno o suficiente para não assustar todas as partes de você que ainda estão tentando mantê-la segura.

Abrir o documento.

Escrever o primeiro parágrafo ruim.

Mandar uma mensagem.

Fazer uma pergunta.

Separar os documentos.

Marcar um horário.

Permanecer dez minutos diante daquilo sem fugir.

O primeiro passo não precisa provar que você conseguirá terminar.

Precisa apenas interromper o pacto com o adiamento.

O que você teme encontrar quando começa?

A terapia não precisa ensinar você a preencher agendas, usar aplicativos ou criar listas mais bonitas.

Isso pode ajudar, mas nem sempre alcança o centro da questão.

O trabalho é compreender o que está sendo protegido toda vez que você deixa para depois.

Qual sentimento parece insuportável.

Qual julgamento você antecipa.

Que imagem de si tenta preservar.

Que mudança teme precisar sustentar.

E quais desejos talvez nem sejam verdadeiramente seus.

Quando isso começa a ficar mais claro, a procrastinação deixa de parecer uma prova de incapacidade.

Ela passa a ser compreendida como uma estratégia.

Uma estratégia que talvez tenha oferecido alívio durante muito tempo, mas que agora impede você de encontrar a vida que existe depois do primeiro passo.

Talvez você não precise esperar a coragem chegar.

Talvez a coragem seja justamente aquilo que se constrói quando você começa sem ela.

A tarefa não precisa deixar de causar desconforto para ser possível.

E você não precisa se tornar outra pessoa para realizá-la.

Talvez precise apenas parar de esperar que a versão pronta de você apareça para começar uma história que somente o caminho poderá escrever.

Um espaço para compreender o que impede o primeiro passo

Você não precisa esperar se sentir pronta para começar a se escutar.

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