Você alcança uma coisa que queria muito.
Por alguns minutos, talvez sinta orgulho.
Então alguma coisa acontece.
Aquilo que parecia tão importante começa a parecer pequeno.
Você pensa que nem foi tão difícil assim. Que teve ajuda. Que qualquer pessoa teria conseguido. Que demorou mais do que deveria. Que poderia ter feito melhor.
Antes mesmo de reconhecer a conquista, já existe uma nova exigência esperando.
A régua sobe.
E você volta a correr.
A linha de chegada continua mudando de lugar
Existe uma diferença entre desejar crescer e nunca permitir que aquilo que você já construiu seja suficiente.
Quem deseja crescer consegue olhar para uma conquista e dizer:
“Isso foi importante. Estou feliz com o que fiz. Agora quero descobrir o que vem depois.”
Quem vive tentando provar o próprio valor raramente consegue permanecer nesse lugar.
A conquista não produz satisfação. Produz apenas um breve alívio.
Você não sente que chegou. Sente que escapou, por pouco, da possibilidade de fracassar.
Logo depois, surge outra meta.
Outro curso.
Outro projeto.
Outra versão de si mesma que precisa ser alcançada.
A sensação de insuficiência não desaparece porque a régua usada para medir seu valor aumenta na mesma velocidade que você cresce.
Você não ignora apenas os elogios
Talvez as pessoas reconheçam sua competência.
Digam que você é inteligente, dedicada, corajosa ou talentosa.
Mas o elogio não encontra um lugar onde permanecer.
Você escuta e imediatamente corrige:
“Nem foi tudo isso.”
“Eu tive sorte.”
“Foi porque me ajudaram.”
“Qualquer pessoa faria o mesmo.”
“Se soubessem quanto eu ainda não sei, não pensariam assim.”
Não é que você não tenha evidências do próprio valor.
É que aprendeu a desqualificar cada uma delas.
Os erros entram inteiros.
Os acertos precisam passar por uma investigação rigorosa antes de serem aceitos, e quase nunca são absolvidos.
Você se torna uma especialista em encontrar explicações para o próprio sucesso que não incluam a sua capacidade.
Talvez ser boa tenha se tornado uma forma de estar segura
Em algum momento da vida, fazer tudo certo pode ter sido muito importante.
Talvez você tenha recebido reconhecimento quando era responsável, madura, educada ou prestativa.
Talvez tenha percebido que havia menos conflitos quando não dava trabalho.
Talvez o ambiente fosse exigente, imprevisível ou emocionalmente difícil, e ser competente tenha se tornado uma maneira de manter algum controle.
Enquanto outras pessoas podiam errar, você precisava entender rápido.
Enquanto alguém desmoronava, você precisava continuar funcionando.
Enquanto as necessidades dos outros ocupavam a casa inteira, você aprendeu a guardar as suas em algum cômodo menor.
Ser boa não era apenas uma qualidade.
Era uma função.
E talvez você tenha ficado tão boa em exercê-la que ninguém percebeu quanto esforço era necessário para permanecer naquele lugar.
Nem você.
A competência pode esconder muita insegurança
Nem toda pessoa que se sente insuficiente parece insegura.
Algumas são justamente as que mais fazem.
Estudam.
Trabalham.
Resolvem.
Cuidam.
Assumem responsabilidades.
Têm ideias.
Começam projetos.
Entregam mais do que foi pedido.
Por fora, parecem confiantes e determinadas.
Por dentro, vivem com a sensação de que ainda precisam provar alguma coisa.
A competência pode se tornar uma ótima estratégia para esconder a dúvida.
Você faz mais para que ninguém perceba que teme não ser suficiente.
O problema é que cada novo resultado fortalece sua imagem diante dos outros, mas não modifica a maneira como você se enxerga.
As pessoas veem uma trajetória.
Você vê tudo o que ainda falta.
“Se eu parar de me cobrar, vou me acomodar”
Essa costuma ser uma das maiores resistências.
Talvez você acredite que sua cobrança foi responsável por tudo o que conquistou.
E pode ser verdade que ela tenha lhe dado impulso durante muito tempo.
O medo pode produzir resultados.
A ansiedade pode aumentar o desempenho.
A necessidade de aprovação pode fazer alguém trabalhar de maneira impressionante.
Mas produzir resultado e produzir bem-estar não são a mesma coisa.
Uma força pode levar você muito longe e ainda assim machucá-la durante todo o caminho.
Talvez a questão não seja eliminar sua ambição, diminuir seus sonhos ou fingir que não deseja crescer.
A questão é descobrir se você está caminhando em direção ao que deseja ou apenas fugindo da sensação de não ser boa o bastante.
Porque existe uma diferença enorme entre:
“Quero fazer isso porque me expande.”
e
“Preciso fazer isso para finalmente me sentir digna.”
Na primeira frase existe desejo.
Na segunda existe uma promessa que nunca se cumpre.
A régua alta não mede apenas seu desempenho
Com o tempo, ela começa a medir tudo.
Sua aparência.
Seu corpo.
Sua casa.
Sua carreira.
Seus relacionamentos.
Sua produtividade.
Sua capacidade de cuidar.
A forma como você fala.
A quantidade de coisas que sabe.
Até o descanso precisa ser bem aproveitado.
Você não pode apenas passar uma tarde sem fazer nada. Precisa descansar direito, ler alguma coisa, organizar a vida, cuidar do corpo ou transformar a pausa em uma experiência produtiva.
Quando a régua invade todos os espaços, viver começa a parecer uma avaliação permanente.
Não existe um momento em que você apenas é.
Existe sempre alguma versão melhor esperando para constrangê-la por ainda não ter chegado lá.
A comparação participa desse processo
Você olha para alguém e vê o resultado.
Depois olha para si mesma e enxerga o processo inteiro.
Vê suas dúvidas, seus atrasos, seus erros, seus dias improdutivos e tudo o que ainda não conseguiu resolver.
Compara a parte mais insegura da sua história com a parte mais visível da vida do outro.
E perde.
Não porque a outra pessoa seja necessariamente melhor, mas porque essa comparação já começou adulterada.
Mesmo quando você alcança algo semelhante, encontra uma diferença que mantém o outro à frente.
Ele conseguiu mais cedo.
Ela parece mais segura.
Ele ganha mais.
Ela faz parecer fácil.
Você não está apenas tentando alcançar pessoas diferentes.
Está tentando alcançar uma imagem construída com tudo aquilo que acredita que deveria ser.
E nenhuma pessoa real consegue competir com uma imagem que não se cansa, não erra, não duvida e nunca tem um dia ruim.
O que você faria se não precisasse transformar tudo em prova?
Essa pergunta pode causar um silêncio estranho.
Porque talvez você tenha organizado grande parte da vida em torno da necessidade de mostrar que consegue.
Mas, se não precisasse provar inteligência, força, competência ou valor, o que ainda escolheria fazer?
Quais projetos permaneceriam?
Quais perderiam o sentido?
De quais responsabilidades você abriria mão?
O que continuaria desejando mesmo que ninguém visse, elogiasse ou reconhecesse?
Talvez algumas escolhas sejam realmente suas.
Outras podem ter nascido da tentativa de receber uma aprovação que nunca parece completa.
Não significa que tudo o que você construiu seja falso.
Significa apenas que chegou o momento de descobrir quanto da sua vida nasceu do desejo e quanto nasceu do medo de não ser suficiente.
Reconhecer o que você fez não é arrogância
Você não precisa diminuir suas conquistas para continuar sendo uma pessoa humilde.
Pode reconhecer sua capacidade sem acreditar que é superior a alguém.
Pode sentir orgulho sem deixar de perceber o que ainda deseja aprender.
Pode agradecer pela ajuda que recebeu sem retirar o próprio nome da história.
Pode comemorar uma chegada antes de escolher um novo destino.
Humildade não é fingir que você não possui qualidades.
É reconhecer suas capacidades sem precisar usá-las para diminuir os outros.
Talvez você tenha aprendido a se reduzir para não parecer pretensiosa, exigente, competitiva ou difícil de amar.
Mas existe um custo em passar a vida se apresentando em um tamanho menor.
Depois de algum tempo, você mesma começa a esquecer o espaço que ocupa.
A régua precisa voltar para a realidade
Talvez você não precise quebrá-la.
Nem jogar fora todas as suas expectativas.
Nem se convencer de que qualquer coisa está boa.
Talvez precise apenas perceber quando a medida deixou de avaliar uma situação e começou a servir para condenar você.
Uma régua saudável ajuda a observar o caminho.
Uma régua construída pela insuficiência garante que você nunca chegue.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja:
“O que ainda falta para eu ser boa o suficiente?”
Talvez seja:
Se cada conquista precisa ser imediatamente superada, que prova seria suficiente para convencer você de que já possui valor?
Se a resposta for “nenhuma”, o problema provavelmente não está na quantidade de coisas que você realizou.
Está no lugar interno que decide se elas podem ou não contar.
Você não precisa parar de crescer
A terapia não precisa ensinar você a desejar menos.
Também não precisa transformar ambição em sintoma ou convencer você a abandonar projetos importantes.
Mas pode ajudar a compreender por que cada conquista desaparece tão rapidamente dentro de você.
Pode revelar de onde veio essa régua, quais vozes ajudaram a construí-la e por que você ainda teme tanto não corresponder.
Pode ajudar a separar excelência de violência interna.
Desejo de aprovação.
Responsabilidade de controle.
Crescimento de fuga.
Porque talvez você não esteja cansada apenas de fazer muitas coisas.
Talvez esteja cansada de fazer tudo isso e, ainda assim, nunca conseguir encontrar a si mesma do outro lado.
Você não precisa diminuir seus sonhos.
Talvez precise parar de diminuir a pessoa que os realizou.
E, antes de aumentar novamente a régua, permanecer por alguns instantes diante daquilo que já construiu.
Não para se acomodar.
Para finalmente deixar que a sua própria história também sirva como evidência a seu favor.
Um espaço para reconhecer a sua própria história
Você não precisa transformar cada conquista em outra prova de valor.
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