Na escola, eu era muito boa em ciências e biologia. Matemática, física e química, por outro lado, pareciam ter sido criadas para me perseguir pessoalmente.

O funcionamento era simples. Se eu tinha nota 8 em biologia, estava tudo certo. Não havia muito o que fazer com aquele 8. Mas, se tinha nota 4 em matemática, era preciso estudar mais, fazer exercícios, pedir ajuda, recuperar a nota e alcançar o mínimo necessário para passar de ano.

E isso fazia sentido naquele contexto.

A escola precisava garantir que todos os alunos alcançassem um conhecimento mínimo em cada matéria. O problema talvez não esteja no que aprendemos ali, mas no fato de termos levado essa lógica para o restante da vida sem perceber.

Crescemos acreditando que aquilo em que já somos bons não precisa de tanta atenção. Afinal, já está funcionando.

Enquanto isso, aquilo em que temos dificuldade passa a receber tempo, dinheiro, energia, cursos, tentativas, cobranças e uma quantidade impressionante de frustração.

O 8 continua sendo 8.

O 4 vira um projeto de vida.

A vida adulta também pode parecer uma recuperação escolar

Imagine alguém que tenha muita dificuldade com planilhas, números e controles financeiros, mas uma enorme habilidade para criar projetos, perceber oportunidades e estabelecer relações.

Essa pessoa pode passar anos tentando se tornar excelente justamente naquilo que mais a esgota. Faz cursos, baixa aplicativos, compra agendas, cria métodos e promete que, dessa vez, finalmente conseguirá funcionar como acredita que deveria.

Enquanto isso, sua capacidade de criar, negociar, comunicar e conectar pessoas permanece quase no mesmo lugar.

Não porque falte potencial.

Falta investimento.

Talvez ela não precise abandonar completamente os números. Precisa aprender o suficiente para compreender a própria realidade, tomar decisões seguras e não depender cegamente de ninguém.

Mas será mesmo necessário transformar essa dificuldade em uma grande habilidade?

Ou seria possível utilizar ferramentas, contratar ajuda, dividir responsabilidades e reservar parte dessa energia para desenvolver aquilo que já demonstra potência?

Essa pergunta pode parecer simples. Para muita gente, ela não é.

Porque aceitar uma limitação ainda parece desistência.

Nem toda dificuldade precisa se transformar em talento

Existe uma diferença entre desenvolver uma habilidade necessária e viver tentando corrigir tudo aquilo que não fazemos bem.

Algumas dificuldades precisam, sim, ser trabalhadas. Quando comprometem nossa segurança, nossa autonomia, nossa saúde ou a forma como nos relacionamos, não basta dizer “esse não é o meu talento” e seguir tranquilamente deixando o caos pegar fogo na cozinha.

Mas nem toda limitação ocupa esse lugar.

Algumas podem ser administradas.

Outras podem ser contornadas.

Há coisas que podem ser delegadas, compartilhadas ou resolvidas com recursos externos.

Você não precisa dominar todas as habilidades necessárias para construir uma vida. Precisa conhecer o suficiente sobre si para saber onde deve insistir, onde precisa pedir ajuda e onde o seu esforço pode produzir algo muito maior.

Talvez você não precise transformar todas as suas limitações em talentos. Talvez precise impedir que elas continuem roubando a energia daquilo que já existe de mais potente em você.

Por que aquilo que falta parece mais importante?

Talvez porque a falta faça barulho.

Quando não sabemos fazer alguma coisa, encontramos obstáculos. Sentimos vergonha, dependemos de alguém, demoramos mais, erramos e nos comparamos com quem parece realizar aquilo sem esforço.

Já o talento costuma ser silencioso.

Muitas vezes, fazemos algo bem há tanto tempo que deixamos de perceber que existe uma habilidade ali. Aquilo parece simples demais para ser valioso.

Você escuta alguém com profundidade e pensa que qualquer pessoa faria o mesmo.

Organiza situações complexas e acredita que apenas resolveu o que precisava ser resolvido.

Escreve, cria, ensina, negocia, acolhe, lidera ou percebe detalhes que passam despercebidos pelos outros, mas não considera isso especial porque acontece com naturalidade.

O que exige menos sofrimento pode parecer menos importante.

E talvez tenhamos aprendido a acreditar que só merece valor aquilo que foi conquistado com muito esforço.

Assim, passamos a admirar mais a dificuldade vencida do que a capacidade desenvolvida.

O talento também precisa ser levado a sério

Ter facilidade para alguma coisa não significa que ela chegará sozinha ao seu melhor nível.

Um talento sem investimento pode continuar sendo apenas uma habilidade agradável, utilizada de vez em quando e reconhecida por algumas pessoas.

É o tempo, a prática, o conhecimento e a coragem de ocupar aquele lugar que transformam potencial em algo consistente.

Uma nota 8 também pode crescer.

Mas, para isso, ela precisa deixar de ser tratada como assunto resolvido.

Talvez você seja naturalmente bom em algo, mas nunca tenha considerado que poderia se aprofundar. Talvez tenha escolhido uma vida inteira baseada no que era seguro, necessário ou esperado, deixando suas melhores capacidades para os intervalos.

Você faz bem, mas apenas quando sobra tempo.

Você gosta, mas não considera importante.

As pessoas reconhecem, mas você responde que “não é nada demais”.

Aos poucos, aquilo que poderia ter se tornado parte central da sua vida vai sendo colocado no fim da lista.

Não porque você não tenha talento.

Talvez porque nunca tenha recebido permissão interna para investir nele.

Existe segurança em continuar consertando defeitos

Focar nas limitações também pode nos proteger.

Enquanto estou ocupada tentando melhorar aquilo em que sou ruim, não preciso descobrir até onde poderia chegar naquilo em que sou boa.

Corrigir uma fraqueza tem um objetivo relativamente conhecido. Existe um problema, um método e um resultado esperado.

Desenvolver um potencial é diferente.

Não sabemos exatamente aonde ele vai nos levar. Podemos precisar nos expor, fazer escolhas, assumir desejos e admitir que queremos algo maior.

Também existe o risco de descobrir que aquilo em que somos bons exige compromisso.

Talento não é apenas uma vantagem. Quando reconhecido, ele começa a pedir espaço.

E talvez seja mais confortável dizer “ainda não estou pronta” porque falta corrigir mais alguma coisa.

Mais um curso.

Mais uma habilidade.

Mais uma insegurança resolvida.

Mais uma versão melhorada de si.

Só depois você começa.

Só depois escreve, cria, muda, apresenta, oferece, lidera ou ocupa.

O problema é que sempre haverá algum 4 disponível para justificar por que o seu 8 ainda precisa esperar.

Em que você vem investindo a sua energia?

Talvez seja importante observar onde estão concentrados os seus maiores esforços.

Quanto tempo você dedica a corrigir aquilo que considera inadequado em si?

Quanto investe nas capacidades que já reconhece?

Aquilo que você tenta melhorar é realmente necessário para a vida que deseja construir?

Ou você continua tentando alcançar uma espécie de aprovação, como se ainda precisasse passar de ano diante de um professor invisível?

Pode ser que algumas dificuldades realmente precisem de atenção. Mas também pode ser que você esteja insistindo em se tornar uma pessoa diferente, quando poderia estar desenvolvendo com mais coragem a pessoa que já é.

Reconhecer uma limitação não é o mesmo que se render a ela.

Às vezes, é apenas parar de transformar cada dificuldade em uma dívida pessoal.

Uma vida não precisa ser construída somente a partir do que falta

Na terapia, costumamos olhar com bastante atenção para aquilo que dói, limita e se repete. Isso é necessário.

Mas o processo também pode ajudar a reconhecer capacidades que foram naturalizadas, diminuídas ou deixadas de lado.

Nem sempre a pergunta precisa ser apenas “o que há de errado comigo?”.

Talvez também seja importante perguntar:

O que existe em mim que ainda não recebeu espaço suficiente?

Em quais situações eu me sinto mais inteira?

O que faço bem, mas continuo tratando como algo sem importância?

Que capacidade minha poderia crescer se recebesse a mesma dedicação que ofereço às minhas falhas?

Quais dificuldades precisam realmente ser desenvolvidas e quais eu poderia simplesmente aprender a administrar?

Você não precisa ignorar os seus limites para reconhecer os seus talentos.

Pode olhar para ambos com honestidade.

A diferença está em deixar de organizar toda a sua identidade ao redor daquilo que falta.

Talvez a vida não esteja pedindo que você finalmente consiga ser boa em tudo.

Talvez esteja pedindo que pare de abandonar aquilo em que poderia ser extraordinária.

Um espaço para reconhecer o que já existe em você

Nem toda mudança começa corrigindo uma falha. Algumas começam quando você decide investir na própria potência.

Conheça o atendimento individual online para adultos no Brasil e no exterior.

Conversar com a Mell