Você pode até reconhecer algumas das suas qualidades quando está sozinha.

Sabe que é inteligente. Que tem uma história. Que já atravessou coisas difíceis. Que possui capacidades, experiências e características das quais deveria se orgulhar.

Mas basta entrar em um ambiente e encontrar alguém que considera mais bonito, seguro, interessante ou bem-sucedido para alguma coisa dentro de você encolher.

Sua postura muda.

Sua voz fica mais baixa.

Você pensa demais antes de falar.

Começa a observar tudo o que a outra pessoa tem e tudo o que acredita faltar em você.

E, sem que ninguém tenha dito nada, passa a se comportar como se valesse menos.

O leão que se enxerga como um gato

Há uma imagem bastante conhecida em que um leão se olha no espelho, mas vê refletido um pequeno gato.

O leão continua forte, imponente e capaz. Nada em sua natureza mudou.

O problema está na imagem que ele aprendeu a reconhecer como sua.

Muitas pessoas vivem assim.

Carregam dentro de si recursos que não conseguem enxergar. Possuem qualidades que diminuem, conquistas que desconsideram e uma beleza que nunca parece suficiente.

Enquanto isso, observam os outros através de uma lente completamente diferente.

O outro aparece inteiro.

Você se enxerga pelos defeitos.

O outro é bonito.

Você apenas ficou bem naquela foto.

O outro é inteligente.

Você só teve sorte.

O outro é interessante.

Você acredita que precisa ensaiar mentalmente qualquer frase antes de abrir a boca.

A comparação já começa injusta porque você coloca o outro no palco e se observa pelos bastidores.

Nem sempre é apenas timidez

Talvez você diga que é tímida.

Que prefere ficar no seu canto.

Que não gosta de aparecer.

Que não sabe conversar ou que não se sente confortável em lugares onde não conhece ninguém.

Mas nem toda timidez nasce da falta de assunto ou de habilidade social.

Às vezes, ela nasce do medo.

Medo de falar alguma coisa inadequada.

Medo de parecer desinteressante.

Medo de ser observada por tempo suficiente para que percebam aquilo que você tenta esconder.

Nesse caso, o silêncio não é exatamente uma preferência. É uma forma de proteção.

Você se esconde antes que alguém possa rejeitá-la.

Evita a foto antes que alguém possa julgá-la.

Não expressa sua opinião para não correr o risco de estar errada.

Recusa o convite dizendo que não estava com vontade, quando a verdade é que não queria chegar lá e sentir que todos eram melhores do que você.

Não é que você não queira ser vista.

Talvez uma parte sua deseje profundamente ser vista, escolhida, admirada e reconhecida.

O que assusta é a possibilidade de ser vista e não ser considerada suficiente.

Quando a aparência vira uma sentença

Também existe uma forma de inferioridade que parece morar no espelho.

A pessoa se acha feia, inadequada, velha demais, gorda demais, magra demais ou diferente demais.

Pode receber elogios e, ainda assim, não acreditar neles.

Quando alguém diz que ela está bonita, pensa que a pessoa está apenas sendo gentil. Se recebe uma crítica, por menor que seja, guarda aquilo como confirmação de tudo o que já pensava sobre si.

Curiosamente, dez elogios podem ser esquecidos em uma tarde.

Uma única rejeição pode ser lembrada durante anos.

Isso acontece porque não enxergamos nossa aparência apenas com os olhos.

Nós a enxergamos através das experiências que tivemos, das comparações que fizemos e das palavras que ouvimos quando ainda não possuíamos estrutura para questioná-las.

O espelho mostra um rosto.

A história decide o que aquele rosto significa.

Em algum momento, ser menor pode ter parecido mais seguro

Talvez você tenha crescido em um ambiente no qual aparecer demais despertava críticas.

Talvez tenha aprendido que pessoas bonitas, confiantes ou expressivas eram chamadas de convencidas.

Pode ter sido comparada com irmãos, colegas ou outras mulheres.

Pode ter ouvido comentários sobre seu corpo justamente quando ainda estava tentando aprender a habitá-lo.

Talvez suas ideias tenham sido interrompidas tantas vezes que você concluiu que não tinha nada importante a dizer.

Ou pode ter aprendido que, para ser aceita, precisava ser discreta, agradável e ocupar pouco espaço.

Aquilo que hoje chamamos de baixa autoestima pode ter sido, durante muito tempo, uma tentativa de pertencimento.

Você aprendeu a diminuir sua luz para não incomodar.

O problema é que continuou fazendo isso mesmo depois que o ambiente mudou.

A comparação não revela quem você é

Quando você se compara, raramente está apenas observando duas pessoas.

Está comparando sua vulnerabilidade com a imagem que o outro consegue mostrar.

Você conhece todas as suas dúvidas, seus fracassos, seus dias ruins e as partes de si que ainda não conseguiu organizar.

Do outro, geralmente enxerga a roupa escolhida, a fotografia selecionada, a segurança aparente e a história que ele decidiu contar.

Por isso, a comparação quase sempre produz um resultado previsível.

Você perde.

Não porque seja realmente inferior, mas porque participa dessa disputa levando contra si todas as provas que reuniu durante a vida.

Você não precisa se tornar maior do que ninguém

Trabalhar a autoestima não significa acordar todos os dias sentindo-se maravilhosa.

Também não significa olhar no espelho e repetir frases nas quais ainda não consegue acreditar.

Autoestima tem menos relação com admirar tudo em si e mais com deixar de usar cada imperfeição como justificativa para se tratar mal.

É poder entrar em um ambiente sem transformar todas as pessoas em parâmetro para medir seu valor.

É aceitar que alguém pode ser bonito sem que isso torne você feia.

Que alguém pode ser inteligente sem que isso diminua sua inteligência.

Que outra pessoa pode ocupar espaço sem que você precise desaparecer.

Talvez você não precise se tornar maior do que ninguém.

Talvez precise apenas parar de se tornar menor diante dos outros.

Um espelho mais honesto

A terapia não precisa transformar uma pessoa tímida em alguém expansivo.

O objetivo não é obrigá-la a gostar de festas, falar alto ou desejar ser o centro das atenções.

O trabalho é compreender por que ser vista se tornou tão perigoso.

De onde veio essa imagem diminuída.

Quais experiências ensinaram você a desconfiar das próprias qualidades.

E por que a opinião dos outros parece ter mais autoridade sobre quem você é do que a sua própria percepção.

Aos poucos, torna-se possível separar aquilo que você realmente é daquilo que aprendeu a acreditar sobre si.

O leão não deixou de ser leão.

Ele apenas passou tempo demais diante de um espelho que não conseguia mostrá-lo por inteiro.

Talvez a sua força não precise ser construída do zero.

Talvez ela já esteja aí, esperando que você consiga finalmente reconhecê-la.

Um espaço para construir um espelho mais honesto

Você não precisa continuar se apresentando ao mundo em um tamanho menor.

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