Você gosta de saber o que vai acontecer.
Quem estará lá.
Quanto tempo vai levar.
Que horas começa.
Que horas termina.
Qual é o plano.
E, de preferência, quais são as alternativas caso o plano não funcione.
Não há nada de errado em se organizar.
O problema começa quando qualquer mudança provoca uma reação muito maior do que a situação parece justificar.
Alguém se atrasa e você sente raiva.
Uma pessoa faz diferente da forma que você ensinou e alguma coisa dentro de você ferve.
Um compromisso é desmarcado e o restante do dia parece perdido.
Uma resposta demora a chegar e sua mente começa a construir cenários.
Uma decisão depende de outra pessoa e você simplesmente não consegue descansar.
Você diz que só gosta das coisas certas.
Que prefere evitar problemas.
Que, se não acompanhar, ninguém fará direito.
Mas talvez não seja apenas uma questão de organização.
Talvez controlar tenha se tornado a forma que você encontrou de se sentir segura.
Quando organização vira necessidade de controle
Organizar é preparar aquilo que pode ser preparado.
Controlar é tentar impedir que exista qualquer resultado diferente daquele que você imaginou.
A diferença nem sempre aparece no comportamento.
Pode aparecer naquilo que você sente quando algo escapa.
Uma pessoa organizada consegue adaptar o plano.
Uma pessoa que precisa controlar pode viver a mudança como ameaça.
Não porque a alteração seja necessariamente grave.
Mas porque ela devolve a pessoa para um lugar interno no qual não sabe o que vai acontecer, como os outros reagirão ou se terá recursos para lidar com aquilo.
Por isso, situações pequenas podem produzir reações intensas.
Não é apenas sobre o atraso.
É sobre não ter sido considerada.
Não é apenas sobre a mudança de horário.
É sobre perder o domínio da situação.
Não é apenas sobre alguém fazer diferente.
É sobre o medo de que o resultado dê errado e sobre quem precisará resolver depois.
Às vezes, o desespero não nasce do que aconteceu.
Nasce da sensação de não estar mais no comando.
Controlar produz alívio
Quando você verifica, confirma, organiza, antecipa e acompanha cada detalhe, sente que alguma coisa ruim foi evitada.
Você confere a porta.
Revisa a mensagem.
Pergunta novamente.
Lembra a pessoa do compromisso.
Repassa mentalmente a conversa.
Calcula todas as possibilidades.
Pensa no plano A, no plano B e, por segurança, já começa a providenciar o plano C para uma situação que nem aconteceu.
Por alguns instantes, a ansiedade diminui.
Você sente que está fazendo alguma coisa.
Esse alívio ensina ao cérebro que o controle funcionou.
Então, na próxima situação, você sente ainda mais necessidade de controlar.
O problema é que nunca existe informação suficiente para garantir que tudo acontecerá como o esperado.
Sempre haverá uma resposta que ainda não chegou.
Uma variável que você não considerou.
Uma pessoa que pode mudar de ideia.
Um corpo que pode reagir de outra forma.
Uma vida inteira acontecendo sem consultar previamente a sua agenda.
Quanto mais você tenta eliminar a incerteza, mais intolerável ela parece.
Às vezes, controlar tudo é a forma que você encontrou de não precisar admitir o quanto se sente insegura quando não sabe o que acontecerá.
Talvez o imprevisível já tenha custado caro
Nem toda necessidade de controle nasceu porque alguém decidiu que gostava de mandar.
Às vezes, ela começou muito antes.
Talvez você tenha crescido em um ambiente instável.
Um lugar no qual precisava observar o humor das pessoas antes de saber como se comportar.
Talvez nunca soubesse se encontraria acolhimento, silêncio, irritação ou conflito.
Pode ter aprendido a perceber pequenas mudanças no tom de voz, no jeito de fechar uma porta ou na expressão de alguém.
Antecipar era uma maneira de se proteger.
Se conseguisse perceber o perigo antes, talvez pudesse evitá-lo.
Talvez tenha assumido responsabilidades cedo demais.
Cuidado de irmãos.
Administrado problemas que pertenciam aos adultos.
Tentado manter a paz dentro de casa.
Aprendido que relaxar significava correr o risco de alguma coisa sair do lugar.
Também pode ter vivido situações nas quais confiou em alguém e precisou lidar com consequências dolorosas.
Promessas foram quebradas.
Pessoas foram embora.
Decisões importantes foram tomadas sem que você pudesse participar.
Algo mudou de repente e você não teve estrutura para compreender ou escolher.
Depois disso, controlar pode ter parecido uma forma de nunca mais ser pega desprevenida.
Hoje, o ambiente pode ser outro.
Mas uma parte sua ainda acredita que precisa permanecer de plantão.
“Se eu não fizer, ninguém faz”
Essa frase costuma aparecer na vida de quem se tornou responsável por tudo.
Você resolve.
Organiza.
Lembra.
Confere.
Antecipa.
Corrige.
E, muitas vezes, realmente faz melhor e mais rápido.
O problema é que, quando você assume tudo, as pessoas ao seu redor deixam de desenvolver responsabilidade.
Elas aprendem que você lembrará.
Que você perceberá.
Que você resolverá.
Que, se alguma coisa der errado, você entrará em cena.
Então você se sente sobrecarregada e conclui que estava certa:
“Não posso confiar em ninguém.”
Mas talvez exista um ciclo.
Você não confia, por isso não permite que o outro assuma inteiramente.
O outro não assume inteiramente porque sabe que você estará lá.
Você termina cansada e com mais provas de que precisa continuar controlando.
Isso não significa que todas as pessoas sejam responsáveis ou competentes.
Algumas realmente não são.
Mas pode ser importante perceber quando você está assumindo porque precisa e quando está assumindo porque não suporta assistir alguém fazer de outro jeito.
Delegar não é pedir ajuda e permanecer ao lado fiscalizando cada movimento.
Também não é refazer tudo silenciosamente depois.
Delegar envolve permitir que o outro encontre uma forma própria, inclusive quando ela não é exatamente a sua.
Quando cuidado e controle se confundem
Você pode controlar porque ama.
Pergunta onde a pessoa está.
Orienta o que deveria fazer.
Prevê as consequências.
Tenta evitar que ela erre.
Oferece soluções antes mesmo que sejam pedidas.
Na sua intenção, existe cuidado.
Mas quem recebe pode sentir falta de espaço.
Existe uma diferença entre apoiar alguém e tentar conduzir a experiência que pertence a essa pessoa.
O cuidado pergunta:
“Você quer minha ajuda?”
O controle conclui:
“Eu sei o que é melhor para você.”
O cuidado permanece disponível.
O controle tenta impedir a escolha errada.
O cuidado aceita que o outro poderá decidir diferente.
O controle vive essa diferença como desconsideração, ingratidão ou risco.
Essa confusão pode aparecer nos relacionamentos amorosos, na maternidade, na amizade e no trabalho.
Você acredita que está tentando proteger.
A outra pessoa sente que está sendo vigiada, corrigida ou administrada.
Então ela começa a esconder informações, evitar conversas ou afastar-se para preservar alguma autonomia.
Quanto mais ela se afasta, mais insegura você se sente.
Quanto mais insegura se sente, mais tenta controlar.
E aquilo que nasceu do medo de perder pode acabar produzindo justamente a distância que você temia.
O preço de sustentar tudo
Controlar dá a sensação de poder.
Mas, na prática, costuma produzir exaustão.
Você não descansa porque precisa acompanhar.
Não aproveita porque está observando o que pode dar errado.
Não recebe ajuda porque precisa verificar se a ajuda será bem-feita.
Não se surpreende porque tenta prever.
Não confia porque confiar exige aceitar que alguma coisa não depende de você.
Mesmo nos momentos bons, uma parte sua permanece trabalhando.
Se a viagem está tranquila, você pensa na volta.
Se a relação está bem, procura sinais de mudança.
Se o projeto está funcionando, imagina qual será o próximo problema.
Se alguém diz que cuidará de algo, você continua mentalmente responsável por aquilo.
O corpo pode estar sentado.
Mas você continua de plantão.
Também existe um custo nos relacionamentos.
As pessoas podem sentir que nunca fazem o suficiente.
Que qualquer iniciativa será corrigida.
Que precisam prestar contas de cada decisão.
Que não existe espaço para errar perto de você.
Você, por outro lado, sente que todos relaxam enquanto você sustenta o mundo.
No final, ninguém se sente verdadeiramente acompanhado.
Você se sente sozinha na responsabilidade.
Os outros se sentem sozinhos nas próprias escolhas.
A raiva pode esconder medo
Quando algo sai do planejado, talvez a primeira emoção que apareça seja irritação.
Você fica impaciente.
Fala mais alto.
Critica.
Fecha a cara.
Tenta encontrar rapidamente quem foi responsável.
A raiva devolve uma sensação de força.
É mais fácil sentir raiva do atraso do que admitir que ficou com medo de ser esquecida.
É mais fácil criticar a forma como alguém fez do que reconhecer que você teme precisar consertar tudo depois.
É mais fácil dizer que as pessoas são irresponsáveis do que entrar em contato com a insegurança de depender delas.
Nem toda raiva esconde medo.
Mas, em alguns momentos, a raiva pode funcionar como uma proteção contra a vulnerabilidade.
Enquanto está irritada, você se sente capaz de agir.
Se entrar em contato com aquilo que existe por baixo, talvez encontre desamparo, insegurança e a velha sensação de que não há ninguém cuidando de você.
O controle também tenta proteger sua imagem
Talvez não seja apenas o medo de alguma coisa dar errado.
Pode ser o medo daquilo que o erro dirá sobre você.
Se o evento não sair perfeito, alguém poderá pensar que você é desorganizada.
Se o trabalho tiver uma falha, poderão questionar sua competência.
Se seu filho tomar uma decisão ruim, talvez você se sinta responsável.
Se a relação terminar, poderá interpretar isso como fracasso pessoal.
Quando o resultado se mistura com a identidade, cada imprevisto parece uma ameaça.
Você não está apenas tentando garantir que algo dê certo.
Está tentando proteger a imagem de alguém que dá conta.
Alguém forte.
Competente.
Responsável.
Preparada.
Uma pessoa que prevê problemas e não permite que nada escape.
O problema é que essa personagem não pode descansar.
Porque descansar significa admitir que nem tudo depende dela.
E, se nem tudo depende dela, talvez também precise reconhecer que não possui poder suficiente para impedir perdas, decepções e mudanças.
Soltar não é abandonar
Para quem vive tentando controlar, a ideia de soltar pode parecer irresponsável.
Como se existissem apenas duas possibilidades:
Ou você cuida de tudo.
Ou deixa tudo desmoronar.
Mas existe um espaço entre o controle absoluto e o abandono.
Você pode planejar sem exigir garantias.
Pode orientar sem decidir pelo outro.
Pode acompanhar sem vigiar.
Pode participar sem assumir tudo.
Pode se preparar e, ainda assim, aceitar que precisará improvisar.
Soltar não significa deixar de se importar.
Significa reconhecer onde termina sua responsabilidade e começa a realidade.
Você continua podendo escolher suas atitudes.
Pode comunicar o que precisa.
Estabelecer limites.
Preparar recursos.
Tomar decisões.
O que não pode é controlar a reação dos outros, impedir todas as perdas ou garantir que nenhuma mudança acontecerá.
Isso não é fracasso.
É a condição de estar viva entre outras pessoas igualmente livres, confusas e imprevisíveis.
É possível treinar pequenas incertezas
Talvez você não consiga simplesmente decidir que deixará de controlar.
O controle foi construído como uma proteção.
Retirá-lo de uma vez pode produzir ainda mais ansiedade.
Mas é possível observar pequenas situações nas quais você possa experimentar não intervir imediatamente.
Esperar um pouco antes de perguntar novamente.
Permitir que alguém resolva um problema sem oferecer a solução.
Aceitar que uma tarefa seja feita de outro jeito.
Não conferir pela terceira vez.
Deixar uma parte do dia sem programação.
Perceber a vontade de corrigir e permanecer alguns minutos sem agir.
Não para provar que você não precisa de ninguém.
Mas para descobrir que consegue lidar com aquilo que acontece mesmo quando não previu.
Segurança não é ter certeza de que nada sairá errado.
Segurança também é confiar que você poderá se posicionar, pedir ajuda, colocar limites e encontrar uma resposta quando algo inesperado acontecer.
O que você acredita que aconteceria se relaxasse?
A terapia não precisa ensinar alguém a ser despreocupado.
Também não precisa transformar organização em defeito.
O trabalho é compreender por que o imprevisível se tornou tão ameaçador.
O que você teme que aconteça quando não está observando.
Por que depender de alguém parece perigoso.
Qual experiência ensinou que relaxar custa caro.
E por que ser responsável por tudo parece mais seguro do que precisar confiar.
Aos poucos, torna-se possível perceber que controle e segurança não são a mesma coisa.
O controle tenta eliminar o inesperado.
A segurança interna permite que você o atravesse.
Talvez você não precise conhecer antecipadamente todas as respostas.
Talvez precise construir confiança na pessoa que será quando a resposta ainda não existir.
Porque a vida não ficará completamente previsível.
As pessoas continuarão mudando de ideia.
Planos precisarão ser refeitos.
Algumas coisas darão errado.
Outras darão certo de um jeito que você nunca teria planejado.
E talvez liberdade não seja conseguir manter tudo no lugar.
Talvez seja descobrir que você continua inteira mesmo quando alguma coisa sai dele.
Um espaço para construir segurança sem controlar tudo
Você não precisa permanecer de plantão para estar segura.
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