Já ouvi muitas mulheres dizerem isso com uma risadinha, como quem prefere fazer uma piada antes que alguém perceba o quanto aquilo doeu: “Eu acho que tenho dedo podre”.

Depois vêm as histórias. Homens diferentes, momentos diferentes, mas uma sensação muito parecida no final. Ela se envolve, acredita, espera, tenta compreender e, quando percebe, está novamente sustentando quase tudo sozinha.

Não é que todos esses homens sejam iguais. O que costuma se repetir é o lugar que ela ocupa diante deles.

O pedestal não aparece de uma hora para outra

Colocar alguém em um pedestal não significa necessariamente achar que essa pessoa é perfeita. Muitas vezes, significa dar mais importância ao potencial dela do que àquilo que ela realmente oferece.

Ele demonstra atenção no começo. Tem uma conversa profunda. Conta uma história difícil. Faz uma promessa bonita. Mostra uma sensibilidade que parece rara.

A partir daí, pequenos sinais começam a ganhar um tamanho enorme. Uma atitude carinhosa vira prova de caráter. Uma conversa sobre o futuro vira intenção de compromisso. Um pedido de desculpas vira certeza de mudança.

Quando ele começa a se afastar, agir com indiferença ou aparecer apenas quando deseja, ela continua presa àquela primeira versão.

“Ele não é assim de verdade.”

“Ele está passando por uma fase.”

“Ele tem medo de se envolver.”

“Ele sofreu muito nos relacionamentos anteriores.”

Pode ser que tudo isso seja verdade. Mas também pode ser que, enquanto tenta compreender tanto o outro, ela esteja deixando de olhar para o que aquela relação está provocando nela.

A relação passa a acontecer menos com o homem que existe e mais com o homem que ela acredita que ele poderá se tornar.

Por que justamente esse tipo de homem parece tão interessante?

Nem sempre escolhemos apenas a partir daquilo que sabemos racionalmente. Existe uma parte de nós que reconhece certas formas de afeto antes mesmo que consigamos avaliá-las.

Para algumas mulheres, amar sempre esteve associado a esforço. Era preciso agradar, esperar, compreender, não incomodar, perceber o humor do outro e encontrar o momento certo para falar.

Quando aparece alguém que alterna proximidade e distância, essa dinâmica pode causar sofrimento, mas também parece estranhamente familiar.

A tranquilidade pode ser confundida com falta de emoção. A disponibilidade pode parecer simples demais. Já a incerteza desperta expectativa, desejo e uma vontade enorme de finalmente fazer aquela relação funcionar.

Quanto mais ele se afasta, mais ela tenta se tornar importante.

Sem perceber, conquistar aquele homem começa a ocupar mais espaço do que a pergunta principal:

Essa relação realmente me faz bem?

No pedestal, tudo nele parece ter uma explicação

O silêncio dele tem motivos profundos.

A dificuldade de compromisso vem dos traumas.

A ausência acontece porque ele está sobrecarregado.

As contradições são resultado do medo.

Enquanto isso, o desconforto dela vira ansiedade. A necessidade de clareza parece cobrança. O desejo de reciprocidade começa a soar como carência.

Os limites dele são respeitados. As necessidades dela vão sendo negociadas até quase desaparecerem.

Ela passa a medir palavras, controlar reações e diminuir expectativas para não assustá-lo. Procura ser compreensiva, madura, leve e independente o suficiente para não exigir demais.

E ele continua no pedestal, sem precisar fazer muita coisa para permanecer ali.

Nem sempre esse homem é cruel ou está tentando enganá-la. Às vezes, ele simplesmente não está disponível para o tipo de relação que ela deseja. Talvez não saiba oferecer mais. Talvez queira outra coisa.

O problema não está em alguém possuir limites. Está em permanecer tentando provar que, com amor, paciência e dedicação suficientes, será possível vencê-los.

A esperança começa a competir com os fatos

Existe uma diferença importante entre dar tempo para que uma relação se desenvolva e permanecer esperando que ela se transforme em outra coisa.

Para perceber essa diferença, é preciso observar menos as promessas e mais a continuidade.

Como ele se comporta quando você está vulnerável?

O interesse permanece quando não existe conquista envolvida?

Você consegue expressar o que sente ou precisa calcular cada palavra para não afastá-lo?

O que ele faz combina com aquilo que diz?

Você está se relacionando com uma pessoa ou com a esperança de que ela mude?

Essas perguntas podem ser desconfortáveis porque nos obrigam a olhar para a relação sem a ajuda da fantasia. E a fantasia, durante algum tempo, também protege. Ela mantém viva a possibilidade de que todo o esforço ainda fará sentido.

Descer alguém do pedestal não significa diminuir essa pessoa

Significa apenas devolver a ela um tamanho humano.

Ela pode ter qualidades e ainda assim não conseguir construir uma relação saudável com você. Pode ter uma história difícil e continuar sendo responsável pela maneira como trata os outros. Pode sentir algo verdadeiro e, mesmo assim, não oferecer o que você precisa.

Reconhecer isso não apaga o que existiu. Apenas permite que os fatos tenham o mesmo peso que a esperança.

Talvez você não tenha dedo podre.

Talvez tenha aprendido a enxergar o potencial antes da presença, a justificar ausências e a insistir por muito tempo antes de considerar que aquilo que recebe também é uma resposta.

Esse padrão não é uma condenação. Ele pode ser compreendido.

A terapia pode ajudar a perceber por que determinados vínculos despertam tanta intensidade, por que a indisponibilidade parece tão atraente e por que desistir de alguém, às vezes, é vivido como se fosse uma derrota pessoal.

Uma relação pode exigir conversa, paciência e ajustes. O que ela não deveria exigir continuamente é que você duvide da própria percepção para conseguir mantê-la de pé.

Um espaço para compreender seus vínculos

Você não precisa continuar se abandonando para sustentar uma relação.

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